Sem confinamento, estratégia da Suécia de 'esperar para ver' evolução do coronavírus gera polêmica

Entre as críticas mais ferozes, especialistas chegam a acusar o governo sueco de conduzir um “insano experimento com dez milhões de habitantes” - uma referência ao número de habitantes do país.

Moradores de Estocolmo aproveitam o domingo de sol em um dos parques da cidade em 22 de março TT News Agency/Anders Wiklund via Reuters Na contramão das rígidas medidas adotadas pelos vizinhos europeus, a comparativamente moderada estratégia sueca de prevenção e combate ao coronavírus polariza as opiniões na Suécia, num momento em que a epidemia segue sua curva ascendente no país.

Entre as críticas mais ferozes, especialistas chegam a acusar o governo sueco de conduzir um “insano experimento com dez milhões de habitantes” - uma referência ao número de habitantes do país. Não há política de confinamento até agora: enquanto os suecos assistem a imagens de policiais patrulhando as ruas em países como Espanha e França, na Suécia os restaurantes, bares e lojas permanecem abertos (embora com movimento notadamente fraco), assim como a maioria das creches e escolas de ensino fundamental. A estratégia central é priorizar a proteção das pessoas mais idosas e de grupos de risco, e adotar medidas graduais de resposta à epidemia a partir da avaliação diária conduzida pelas autoridades de saúde sobre a evolução da crise.

De acordo com as estatísticas oficiais divulgadas nesta quarta-feira (25)  pela agência sueca de Saúde Pública (Folkhälsomyndigheten), a Suécia contabiliza 2.272 casos confirmados do novo coronavírus, e 36 mortes.

Um total de 115 pessoas estão internadas em unidades de terapia intensiva. País se prepara e promete subsidiar 90% dos salários Ao mesmo tempo, o país se prepara em ritmo de urgência para o pior cenário, com medidas como a criação de novos leitos de tratamento intensivo, hospitais de campanha e preparativos para a convocação de profissionais de saúde aposentados.

Testes para diagnóstico do coronavírus são realizados primordialmente entre pacientes em condições mais graves.  Em raro pronunciamento à nação na noite de domingo, o primeiro-ministro Stefan Löfven advertiu mais uma vez para a seriedade da crise do coronavírus, renovou os apelos para que todos os cidadãos limitem seus contatos sociais, e pediu à população que esteja preparada para medidas mais drásticas que possam ser necessárias para combater a epidemia do coronavírus. A fim de salvaguardar a sociedade e manter a tranquilidade entre a população, o governo sueco anunciou que irá subsidiar 90% do salário dos trabalhadores que sejam afastados temporariamente de seus empregos.

O robusto sistema sueco de proteção social também garante o pagamento de generosos salários-desemprego, além de apoio adicional para os mais vulneráveis na forma de benefícios como subsídios para pagar aluguel de moradia.

O Banco Central sueco, por sua vez, disponibilizou um total de 500 bilhões de coroas suecas (cerca de R$ 249 bilhões), a fim de fornecer linhas de crédito bancário a pequenas empresas nos próximos 24 meses.

E os impostos das empresas só serão cobrados em 2021. Pensar fora da caixa também tem sido uma peculiaridade sueca para enfrentar a crise: mais de mil funcionários afastados da companhia aérea Scandinavian Airlines (SAS) já estão recebendo treinamento intensivo a fim de reforçar a frente de trabalho no sistema de saúde para combater o coronavírus.

A SAS afastou temporariamente dez mil funcionários (90 por cento da força de trabalho), após o fechamento das fronteiras da União Européia e de diversos países. Até o momento, apenas as universidades e instituições do ensino médio foram fechadas, em uma decisão adotada tardiamente em relação aos demais países nórdicos.

Fechar todas as escolas - ponderam por enquanto as autoridades suecas - obrigaria uma parcela significativa de trabalhadores do setor de saúde e outros serviços essenciais a ficarem em casa com as crianças, e poderia significar um risco adicional de contágio dos avós. Danos à economia Em resposta às recomendações do governo, um grande número de pessoas passou a trabalhar de casa, remotamente.

Outras empresas continuam a operar normalmente - embora com atenção à recomendação das autoridades de que funcionários que apresentem qualquer sintoma de gripe permaneçam em casa, e só retomem a rotina dois dias após recuperarem a saúde. A palavra de ordem das autoridades suecas - além das recomendações  básicas de higiene - é distanciamento social: manter-se em casa na medida do possível, não visitar parentes idosos, evitar viagens e efetivamente manter uma distância prudente de outras pessoas.

Eventos com mais de 500 pessoas estão banidos, mas na prática diversos encontros de menor porte estão sendo cancelados voluntariamente. “Acredito que as estratégias adotadas aqui na Suécia são baseadas nos dados disponíveis, ou seja, em dados como o número de infectados, de casos graves e de mortes.

Esses dados, embora imprecisos em relação à quantidade de infectados, devido ao número de pessoas testadas, devem estar guiando as decisões centrais”, diz em entrevista à RFI o especialista brasileiro Antonio Ponce de Leon, professor titular de Estatística e Epidemiologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e professor visitante regular do Instituto Karolinska da Suécia. “A meu ver, as políticas de enfrentamento estão baseadas na gravidade da situação, até para não causar danos extremos à economia.

Isolar os mais suscetíveis deve ser a meta para que o número de mortes seja minimizado”, acrescenta ele. Nas ruas de Estocolmo, é flagrante a queda do movimento, até em função da decisão de reduzir a frequência dos transportes coletivos.

Mas nada que lembre uma quarentena radical - como mostraram, esta semana, as cenas de pessoas aglomeradas em algumas linhas de ônibus que tiveram sua frequência reduzida.

Imagens de ônibus cheios, raramente vistas na Suécia, circularam fartamente na mídia e nas redes sociais, am aberta crítica à decisão de diminuir a frota diante da crise do coronavírus. ‘Roleta Russa’ Mais extremas são as críticas vindas de alguns setores da academia sueca.

O tom se elevou especialmente depois que o Reino Unido, que vinha seguindo uma linha de contenção da epidemia semelhante à adotada pela Suécia, entrou em um estágio mais radical da campanha e decretou na segunda-feira uma quarentena obrigatória de três semanas para todos os habitantes, a fim de tentar conter a propagação do coronavírus. “O Reino Unido fez um giro de 180 graus em seu plano inicial de combate ao coronavírus.

A Suécia precisa mudar imediatamente sua estratégia a fim de tentar conter a epidemia.

As autoridades de saúde pública devem recomendar o isolamento para todos, e não apenas para as pessoas acima de 70 anos”, escreveram em artigo no jornal "Svenska Dagbladet" os especialistas Joacim Rocklöv, professor de Epidemiologia da Universidade de Umeå, e Holger Rootzén, professor de Matemática e Estatística da Universidade de Gotemburgo. Estratégia do ”esperar para ver” é criticada Editoriais de jornais também têm criticado a postura de “esperar para ver” do governo, e vários especialistas expressaram preocupação em artigo divulgado na publicação da Associação Sueca de Medicina (Läkartidningen).

Para alguns, o governo parece estar priorizando a saúde da economia - e não da população. “Quantas vidas as autoridades estão dispostas a sacrificar a fim de evitar consequências graves para a economia?”, disse o professor Joacim Rocklöv em uma troca de emails entre especialistas a que a TV pública SVT teve acesso. No Youtube, o professor de Matemática da Universidade de Lund Marcus Carlsson descreveu a estratégia do governo como um “insano experimento com dez milhões de pessoas”.

Nas palavras de Carlsson, as autoridades estariam “jogando roleta russa com a população sueca”: “Minha sensação é de que estamos sendo conduzidos como um rebanho de carneiros rumo ao desastre”, disse o professor. Anders Tegnell, o epidemiologista responsável pelas ações de prevenção e combate ao coronavírus na Suécia, rejeita as críticas de que as ações da agência de Saúde Pública estejam sendo pautadas por preocupações econômicas.

E afirma que todas as decisões estão sendo avaliadas e atualizadas com a frequência que a crise exige.  “É importante adotar uma linha de atuação que seja sustentável e possa ser mantida por um longo período, e que é: se estiver doente, fique em casa.

É mais viável do que pedir que todos fiquem em casa o tempo todo, o que não funcionaria a longo prazo”, diz Tegnell. Os mais críticos fazem questão de apontar que Anders Tegnell já errou antes em seus prognósticos: no início de março, a avaliação do epidemiologista do Estado era de que a epidemia do coronavírus ficaria restrita à China.

O próprio Tegnell admitiu a falha na previsão. Mas outros especialistas concordam com a estratégia sueca adotada até o momento. “Não acredito que o cenário na Suécia seja tão sinistro, embora não haja dúvidas de que o país enfrenta uma situação séria”, disse à TV pública sueca Tom Britton, professor de Matemática da Universidade de Estocolmo. “Em linhas gerais, pode-se dizer que o modelo adotado agora pelo Reino Unido poderia ser aplicado à Suécia, mas creio que há certas diferenças.

Por exemplo, temos uma densidade populacional menor que a do Reino Unido, o que significa um risco menor de contágio”, avalia Tom Britton.

Em toda a Europa, a Suécia tem ainda o maior número de lares habitados por uma só pessoa. Outra diferença apontada por Britton é o alto nível de confiança da população da Suécia nas autoridades públicas: “Creio que os suecos ouvem e respeitam mais as instruções das autoridades, em relação ao que acontece em outros países.

Temos confiança na sociedade e no funcionamento do Estado”, diz ele. Pesquisa divulgada esta semana pelo jornal "Expressen" indica que é forte o apoio da população à decisão de manter abertas as creches e escolas do ensino fundamental.

Apenas 12% dos entrevistados acham que as escolas devem ser fechadas em função da crise do coronavírus, enquanto 70% disseram ser contra o fechamento. Na avaliação do epidemiologista Anders Tegnell, o surto do coronavírus deve atingir seu pico na Suécia entre abril e maio, e em seguida entrar em uma curva descentente.

Em declarações à TV pública sueca, ele afirmou ainda que um novo surto - mas de menor intensidade - poderia em seguida ocorrer mais tarde, no outono. Para o especialista carioca Antonio Ponce de Leon, a estratégia sueca envolve riscos altos, principalmente para o segmento dos mais suscetíveis - ou seja, idosos e doentes crônicos. “Se essa estratégia fosse acompanhada de campanhas de isolamento dos suscetíveis, o que seria possível embora custoso, seria menos ‘insano’, como colocou o professor da Universidade de Lund.

Acredito que se a situação, ilustrada pelos dados em tempo real, se agravar, a estratégia será ajustada, assim como está acontecendo em outros países.

Enfim, não há só uma estratégia, há um conjunto de estratégias que são acionadas dinamicamente.

A questão básica, portanto, é a decisão sobre quando mudar as políticas de enfrentamento”, destaca Ponce de Leon. Brasileiros na Suécia Entre os brasileiros que residem na Suécia, as opiniões acerca da estratégia sueca contra o coronavírus também se dividem.

A carioca Ilana Eleá, que mora em Estocolmo há nove anos, diz ter dúvidas sobre a eficácia do plano sueco. “Nunca duvidei que esse país escandinavo no qual vivo desde 2011 e que muito admiro por suas políticas públicas, adotaria uma uma postura racional e equilibrada, guiando e protegendo a população sem apelar para o pânico. Mas sem testes em massa, desdenhando do uso de máscaras (apenas profissionais de saúde devem usá-la), apostando todas as fichas na lavagem das mãos e na responsabilidade de cada um de manter distância social e trabalhar de casa caso possível, além de incentivar os idosos a não saírem de casa e pedir à população para não sair de casa se estiver com sintomas de gripe - seriam essas ações suficientes para conter uma pandemia que chega devastando milhares?”, pergunta-se Ilana. “Que dados o país possui, e o que o faz escolher estratégias que nenhum outro país adota? Temos o direito de questionar”, acrescenta Ilana, que é doutora em Educação e trabalha como bibliotecária em uma escola de Estocolmo.  Já o consultor editorial Carlo Carrenho, na Suécia há dois anos, diz sentir-se seguro.

“Em primeiro lugar, porque cada decisão, seja de agir ou não, é feita depois de muita análise e discussão, o que já é uma tradição sueca.

Em segundo lugar, as decisões aqui são tomadas pelas autoridades de saúde e defesa civil.

Não são nunca decisões políticas, mas técnicas.

O terceiro motivo é que as autoridades suecas adotaram uma estratégia flexível que pode mudar de acordo com a situação diária do crescimento do vírus no país.

Portanto, a qualquer momento uma quarentena pode ser sugerida.

Mudar é parte da estratégia”, destaca Carlo. Ele observa que o governo sueco também se prepara para o pior, aumentando a capacidade hospitalar, recrutando e treinando profissionais e montando uma operação de guerra nos hospitais. “O governo sueco se prepara para o pior, mas evitar tomar medidas antes que sejam de fato necessárias.

Vale lembrar ainda que existe uma obsessão nacional em não contaminar o próximo quando se está resfriado.

Além disso, há um colchão de seguridade social aqui inimaginável em outros países do mundo, assim como um espírito de coletividade quase utópico.

Portanto, acho que a estratégia sueca é a mais acertada para a Suécia.” Para o professor Antonio Ponce de Leon, um aspecto importante diferencia as sociedades brasileira e sueca, além do marcado contraste no tamanho de suas populações: “No país escandinavo há muitos indivíduos que residem sozinhos, enquanto no Brasil esse número é muito menor.

E como agravante, nas classes sociais mais baixas há muitas vezes várias pessoas morando juntas.

Dado o grau de contágio deste vírus, somente este fator poderia resultar em diferentes desfechos da epidemia nos dois países, mesmo que as medidas de enfrentamento fossem as mesmas”, observa o especialista.  Initial plugin text
Categoria:Mundo